quarta-feira, 8 de abril de 2009

E aí, qual o terreiro?

Minha avó tinha um terreiro de umbanda em casa. O prazer do meu avô, que não era chegado em caboclos e pretos véios, era sentar na porta do centro e fumar seu cigarro com piteira. Era fumar e limpar a piteira, paradinho ali no degrau. A cena, peculiar, mas recorrente na minha infância, me voltou à mente assim que eu li que o culto religioso ganhou imunidade na lei anti-tabaco.

Veja que bizarro, de acordo com as novas regras, a fumaça de vovô sob a proteção de São Jorge estaria completamente dentro da norma paulista (não vamos citar que o terreiro de vovó não devia ter alvará, não é mesmo?). Segundo o projeto votado pelos deputados, não se pode mais fumar em restaurantes, bares, baladas, nem mesmo em fumódromos, contudo, a regra é clara, os centros espirituais viram consulados de baforadas.

E aí, qual o terreiro hoje?, logo, logo vão te perguntar. Mãe Menininha do Baforá na Baixa Augusta, para os metidos a Vinícius. Para os órfãos das baladas que valem um salário mínimo, o Centro São Cosméticos e Domilhão. Salvador entra para a lista das melhores noites do mundo, atrás apenas de Barcelona e Nova York. Axé do afoxé, Filhos de Gandhy, pacotão Bahia mística em 5 noites.

O lado bom de uma lei é que sempre existe a brecha dessa mesma lei, onde não vai faltar gente tentando entrar. Doidões, por exemplo, quando enquadrados, são rastafáris desde criancinhas. E o seu guarda que tente explicar para o filho de Jah que THC não é tabaco. Quem duvida que logo mais vão criar a seita dos adoradores de Marlboro? Ou a Igreja Paraíso da Fumaça? Duvida? Dá um google para ver se "Igreja Universal dos Fumantes de Deus" não existe, se não fica em Amsterdã e se não foi um dono de bar holandês - de alma brasileira, dizem - que deu um jeitinho para que a cerveja e cigarro nunca se separassem, pecado mortal na religião dele e na minha também.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Explicando a minha ausência

Livre do cigarro, tenho que admitir um outro vício, o Big Brother. Sou capaz de passar o dia vendo o pay per view, dando F5 no site oficial e acompanhando os comentários no Orkut. Sei que você, esse ser elevado e alheio à cultura de massa, vai dizer: nossa, como você perde tempo com essa porcaria? Do mesmo jeito que você, a diferença é que EU admito.

Ah, coisa mais chata essa gente torcendo o nariz para o meu querido BBB. Como não gostar de putaria, barraco e gente doida? É a essência da vida.

E para completar minha alegria televisiva, mais uma nova temporada do Lost acabou de começar. É baixar, ver e se enfiar em um mundo de spoilers e teorias pelos blogs por aí. "É uma onda", como diria Fani (ou Natalia, sei lá) na propaganda do telefone do BBB.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Um dia a casa cai

Nunca gostei de mentir. Nada contra quem inventa inventa um caso ou outro, mas a verdade é que mentir dá trabalho. É preciso, além de criatividade, energia para levar a história até o fim. Uma prisão até o fim dos dias, dramas de segredos confessados no último suspiro. E por melhor que seja o mentiroso, ele não consegue calcular todas as variáveis. Veja, por exemplo, o caso do último "desaparecido" nos escombros da Igreja Renascer.

A família dizia que o parente, um homem de 40 anos, não havia voltado para casa desde a noite anterior, quando teria ido ao culto que terminou em tragédia. Para procurar o sumido, os bombeiros passaram a manhã revirando entulho. E nada. A imprensa noticiando mais uma possível vítima. E nada.

Até que, no começo da tarde, a família encontra o sumido. Tinha voltado para casa vivinho da silva, são e salvo. O único arranhão era mesmo na reputação. Afinal, agora o país inteiro sabia que "culto que é bom nada, né?". Adiou a reza para resolver outro assunto e se esqueceu da vida, se esqueceu até de ligar a televisão no noticiário. Da próxima, vá comprar um cigarro. O álibi pode não estar acima de qualquer suspeita, mas, pelo menos, ganha, por jurisprudência, uns 15, 20 anos de lambuja até alarmarem os bombeiros.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Adios, amigo

Se separar de um companheiro de 14, 15 anos é sofrido. Dói tudo: a cabeça, as costas, o peito; inflama a garganta e apaga a vontade de levantar da cama. Dá mau humor, tremores e até um tantinho de depressão.

Afinal, o cigarro esteve ali sempre que precisei. No trabalho, na balada, em casa, um verdadeiro pretinho básico. Um vai-com-tudo, o coringa dos tímidos, estressados e inseguros.

Com ele, as horinhas matadas longe da mesa de trabalho não são preguiça nem safadeza, são necessidade. Só com ele se dribla um silêncio constrangedor, um não sei o que fazer com as mãos, uma espera longa.

E, na mesa, vai com tudo. É sobremesa (e sem calorias). Um digestivo sem a metideza de um licor e sem os efeitos colaterais de um "digestivozinho". Com cerveja, então, combina que é uma beleza, depois que você experimenta fica quase impossível de dissociar. Fora que torna qualquer teoria de bar, qualquer "historicamente falando" muito mais interessante, quer dizer, muito menos patético.

E que eficiência na hora de fazer amigos! Um isqueiro emprestado, um Derbyzão arrumado, um fumódromo lotado e a socialização se torna quase obrigatória.

A real é que a saudade faz você enxergar só as coisas boas. O cigarro, na verdade, também é um amigo chato. Quer atenção exclusiva - ai de você se quiser se dividir entre ele e uns quilômetros de corrida. Para demarcar território, te deixa numa fedentina insuportável. E controla sua vida mais que namorado - vai dormir sem uma caixinha deles ao seu lado. E é por isso que decidi abandonar o bom e velho Marlboro há uma semana, vinte mil crises e algumas escapulidas.

Tocarraulll (ou eu tomando na rima)

Tocarraulll (ou eu tomando na rima) O seu dia não pode caminhar bem se o primeiro lugar que você olha, pela manhã, é a privada. Digo olhar com o olho da cara, não olhar com o olho da capa do disco do Tom Zé.

Oito horas da manhã, domingo, a farra do dia anterior agora teima em sair por onde entrou ao invés de seguir o curso natural da vida e se mandar pela rima. Tocarraulll, gritava eu noite anterior, lembro agora.

Mandei o moço do sambinha de raiz tocar Raul, cara. E não lembro o que o pobre fez para merecer tanta malcriação. Provavelmente nada. Culpa mesmo da pomba-gira que estava dentro do copo e que agora quer sair em jatos à la Linda Blair.

Também, quem mandou se meter em bar que toca samba? E de raiz? Deve ser vingança da minha saia indiana, promovida a pano de chão quando descobri que combinar era preciso, ripongar não era preciso. Mas uma coisa que ainda não descobri é por que o Cartola tinha aquele nariz esquisito. Lembro que isso me afligia ontem, passei horas fazendo o diagnóstico com uma amiga médica. Na hora chegamos a alguma conclusão brilhante, mas agora a minha porção "House" se resume a um mau humor e o plantão de oito horas de trabalho que encararei.

Levanto, lavo tudo no chuveiro e penso no busão que vou pegar com a rádio sintonizada em algo entre o sertanejo e o pagode. E dessa vez não vai ter Raul que me salve.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Bolso de bêbado tem dono

Viver de bar em bar, todos sabem, não é algo saudável, principalmente para seu bolso. Para não acordar com ressaca financeira (já bastam a moral e a física), existem técnicas para suavizar o impacto das noitadas no seu orçamento.

O transporte
Aparentemente, empresas de transporte coletivo não estão interessadas no amassado dinheiro que sobra no seu bolso de trás. Meia-noite é o deadline deles para sua farra. O bom senso vai gritar, às doze badalas, "já para casa, imprestável". E você vai ignorá-lo solenemente certo de que "ah, um taxizinho não vai matar".

Ok, um táxi
A menos que um caronista (tão raros em tempos de lei seca) salve sua noite, você não terá remédio a não ser optar pelo taxímetro, aquela progressão aritmética que nunca vai fazer sentido. Enfiado na lama, com uma bandeira 2 espetada no coração, você, na calçada, estica os dedinhos. Mas calma! O bebum consciente não se entrega sem luta àquela equação devoradora de reais. Ele sabe que cada passo dado é um centavo economizado. Pois então, caminhe. Melhora o grau e poupa seu rico dinheirinho. A não ser que, na sua peregrinação, você encontre o paraíso pós-cerveja.

Comida!
Depois do amendoim e da batatinha como tira-gostos, o bebedor, no fim da balada, ainda tem fome. Se encontra outros bebuns esfomeados como companhia, meu deus, a feijoada é o limite (sim, já houve casos). Se comer é inevitável, opte pelo óbvio. O bom e barato cachorro quente do tiozinho da esquina. O número 01 com coca. A pizza em pedaço. Não elabore, não se desloque, não invente moda, cacete! Está tarde, você não está com fome de verdade e existe a possibilidade da comida bater e voltar. Imagine só 40 reais de sushi descarga abaixo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Jogo da Verdade

Encontrei um amigo dia desses e fui toda feliz cumprimentá-lo. E aí, tudo bem, como vão as coisas, quando ele vira e diz: e você nunca muda, continua sempre igual.

Não soou como um elogio. Muito menos como um elogio sobre o meu estado de conservação. Era sim uma crítica sobre a falta de novidades que eu trazia. De fato, as pessoas casam, procriam, perdem empregos, viram chefes, separam, quebram a cara, têm o dia mais feliz de suas vidas, pensam em se matar e eu sempre na mesma.

A verdade é que sempre tive aversão a mudanças. Se me perguntam quais as novas, penso, no íntimo, 'nenhuma, graças a deus'. Fico confortável no meu marasmo. Gosto de ser a garota (mulher não, por favor) sem grandes compromissos, sem grandes encanações (mentira!), sem grandes planos, vivendo o que aparecer.

Se tivesse culhão para viver como uma doida varrida, minha filosofia seria mais útil. Quem precisa de estratégia se vai morrer cedo? O problema é que não tenho estômago nem talento nem idade para acreditar nisso de "live fast, die young". Posto isso, o jeito é reunir os amigos, ir para casa de alguém perder a cabeça e jogar jogo da verdade. E foi o que fiz.